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Papa Francisco: de volta às fontes

 

No dia 13 de março de 2018, o Papa Francisco completa cinco anos de sua eleição à cátedra de Pedro. Como definir este quinquênio de intenso pontificado? Podemos arriscar uma frase de efeito: por uma parte, encíclicas, exortações e mensagens tão simples, profundas e concretas quanto um olhar, um toque, um abraço, uma presença amiga; por outra parte, ações, visitas e gestos que valem uma encíclica, ou um tratado sobre a Boa Nova do Evangelho.

Como explicar essa transparente congruência entre a palavra e o comportamento? O pontífice parece desmentir o provérbio italiano “Tra il dire e il fare in mezzo c’è il mare” (entre o dizer e o fazer, no meio existe o mar). Evidente que boa parte dessa coerência mergulha suas raízes em um percurso místico disciplinado e perseverante, à moda dos exercícios espirituais da Companhia de Jesus. Aqui a razão se mantém respeitosamente aquém da tentativa de entender a relação profunda entre Deus e a alma humana.

Outras razões, porém, trazem alguma luz às mudanças que o Papa Francisco vem imprimindo no interior da Igreja. Comecemos, por exemplo, com a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), particularmente na América Latina e Carive. Nesse tipo de vida eclesial de vizinhança e proximidade, a Palavra de Deus e a realidade de injustiça e opressão se comunicavam e se interpalavam reciprocamente. À medida que a leitura dos textos bíblicos iluminava a existência real, esta passava a ser objeto de um processo ativo de transformação. As mudanças, por sua vez, embora lentas e cheias de contrastes, ajudavam a reinterpretar o sentido dos livros sagrados. Instalava-se, desse modo, o que veio a ser conhecido como “círculo hermenêutico”. A Bíblia ilumina a vida e esta confere um significado mais vivo à Palavra de Deus, que volta a jogar nova luz sobre a realidade, e assim sucessivamente.

A experiência eclesial das CEBs, por outro lado, vinha acompanhada por uma leitura científica da fé e da comprensão histórica, social e política. Entrava em cena a Teologia da Libertação (TdL). Tratava-se de uma forma crítica de analisar essa relação estreita entre a fé e a vida, enriquecida com as novas formas de ler e interpretar os livros bíblicos, nova exegese, nova cristologia e nova teologia. Daí o desdobramento da religião cristã em uma participação crescente nas ações de caráter socio-transformador da sociedade vigente. A análise, ao mesmo tempo que se aprofundava através da releitura da Palavra de Deus e da contribuição das ciências sociais, conferiva vigor sempre novo e profético ao compromisso pastoral e socio-político. Também neste caso funcionava o “círculo hermenêutico”: a leitura teórica iluminava a práxis histórica e esta levava a uma reinterpelação da teoria, a qual, por sua vez, aprofundava a visão de mundo e, simultaneamente, a urgente necessidade de uma ação engajada, e assim por diante.

Além das CEBs e da TdL, distintas regiões da América Latina e Caribe formaram o berço de uma série de “pastorais sociais”. Constituíam uma forma de ação inserida no interior da estrutura da Igreja, voltada para categorias ou grupos específicos de pessoas empobrecidas, indefesas e em geral à margem dos benefícios sociais. Alguns exemplos: pastoral da terra, pastoral afro-brasileira, pastoral dos migrantes, pastoral operária, pastoral da criança, pastoral do menor, pastoral dos indígenas, pastoral da mulher marginalizada, pastoral dos pescadores... Por trás de cada pastoral, havia um pequeno exército, o qual, à luz dos textos bíblicos, tentava entender seus problemas e desafios, buscando saídas conjuntas.

Se a essas três fontes somarmos a efervescência acadêmica, com seus intelectuais orgânicos, os movimentos sociais e estudantis e o sindicalismo combativo – teremos um retrato aproximado do contexto eclesial e histórico onde o Papa Francisco desenvolveu sua atividade pastoral, seja como sacerdote religioso, bispo ou cardeal. Em semelhantes circunstâncias, as páginas evangélicas são lidas com o coração de quem possui atrás de si uma dura e turbulenta travessia. Interpretadas a partir dessa situação concreta, tais páginas ganham um brilho bem mais intenso e luminoso. Mas não é só isso! Também a fé amadurece com os pés no solo úmido e escuro de realidades adversas e contraditórias, podendo, por isso mesmo, ganhar asas e levantar voo na tentativa de contribuir com a construção da utopia do Reino de Deus.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 24 de fevereiro de 2018

 

 
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