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Teologia do Trabalho

Pe Miguel Pipolo, Assessor Eclesiástico da Pastoral Operária Nacional 

 

“Grandes e maravilhosas são as tuas obras” (Ap 15,3) 

            Trabalhador e trabalho – este temário perpassa a Escritura. Nas primeiras paginas sua relevância já transparece com ênfase; Deus se apresenta como “criador”, ou seja, “trabalha-dor” (Gn 1,1 – 2,4a | 2,4b-3,24). Deus cria e faz. No decorrer dos dois relatos é dado destaque ao fazer humano. Adão recebe o jardim “para cultivar e o guardar” (Gn 2,5). A terra é destinada à humanidade para que a cultive e domine (Gn 1,28). Assim, já nos primeiros capítulos o traba-lho aparece como categoria social e, simultaneamente, teológica. Esta dupla dimensão marca presença no todo da Escritura. Lembremo-nos algo importante. “Plantar” e “colher” é, no mundo da Bíblia, o trabalho socialmente mais relevante e que, por conseguinte, tem-se em mente o camponês e a camponesa quando, de modo mais genérico, falamos do trabalhador. Nos textos bíblicos trabalhar é, primordialmente, cultivar a roça como algo prazeroso. E o roceiro é o modelo do trabalhador.

            Na outra ponta bíblica o trabalho deixa de ser algo prazeroso; a acumulação atingiu ní-veis intoleráveis. “Ai da grande cidade, Babilônia, a poderosa... Os comerciantes da terra chora-rão e farão luto por ela, porque ninguém compra sua mercadoria; ouro e prata, pedras precio-sas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, madeiras aromáticas, objetos de marfim, obje-tos de madeiras preciosas, de bronze, ferra e mármore, canela e especiarias, perfumes, mirra e incenso, vinho e óleo, flor de farinha e trigo, vacas e ovelhas, cavalos, carros, escravas e escra-vos. O lucro que cobiçavas fugiu de ti, perdeste teu rendimento e esplendor, e não voltarás a encontrá-los” (Ap 18, 9-14). Estamos longe da visão do paraíso para estarmos envolvidos na manipulação das forças produtivas e do braço escravo em benefício de elites dominantes. Mesmo assim o vidente enxerga novos tempos que virão; um novo céu e uma nova terra onde não haverá morte, luto, lágrimas e dor (Ap 21), radicalmente diferente do regime escravagista romano.

            Antes disso houve tudo isso acima descrito. 2Rs 21 nos diz que o regime de Manassés foi o mais longo e repressor. Em seus 55 anos de desmandos “derramou muitíssimo sangue inocente, até encher Jerusalém de um a outro extremo” (2Rs, 26). O povo, “sangue inocente”, resistiu profeticamente. Com a morte de Manassés o “povo da terra” transforma-se em gover-no. O povo da terra é o campesinato judaíta; esses camponeses livres foram de grande impor-tância política. Souberam impor-se aos interesses da elite palaciana de Jerusalém (cf 1Rs 11; 14,21; 23,30). Já no período grego (Alexandre Magno – 332 aC) a produção era coisa para escra-vos. O escravagismo necessita de escravos que produzam e de mercados que adquiram seus produtos. Nisso reside o totalitarismo grego e romano. O campesinato judaíta travou uma luta de vida ou morte. Estamos no período da revolução dos macabeus que vai de 167 aC, até o le-vante de Simão Ben-Cosba em 130-131 dC, um longo período heroico quando trabalhadores e lavradores judaítas resistiram de múltiplas maneiras, com armas ou sem elas, enfrentando exércitos ou emigrando para os desertos.

            O movimento de Jesus Cristo está integrado a este contexto, marcado pelo insucesso do levante dos macabeus e pelas divisões entre o povo. O específico deste “movimento jesuânico” é o de crer na restauração do povo a partir dos mais machucados e sofridos, pobres e pecadores. É a proposta que mais se achegou às dores da gente que trabalhava sem ter o que comer. Em Jesus Cristo se realiza as palavras de Êxodo 3,7: “vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi suas queixas contra os opressores, prestei atenção a seus sofrimentos”. Estamos, outra vez, longe da visão do paraíso, inseridos no paraíso greco-romano das elites do Mediterrâneo e do Oriente Médio. O texto de Mateus 20,1-16 espelha a dura realidade sócioeconômica vivida pela classe trabalhadora. Tal realidade é bem captada por Tiago. “E agora vocês, ricos: comecem a chorar e gritar por causa das desgraças que estão para cair sobre vocês. Suas riquezas estão podres, suas roupas foram roídas pela traça; o ouro e a prata de vocês estão enferrujados; e a ferrugem deles será testemunha contra vocês, e como o fogo lhes devorará a carne. Vocês amontoaram tesouros para o fim dos tempos. Vejam o salário dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês: retidos por vocês, esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tg 5, 1-4).

            O trabalho –e com ele o trabalhador- passou da escravidão antiga à servidão medieval, para se tornar “mercadoria” na lógica do mercado capitalista. Nada é tão pecaminoso quanto esquecer que o trabalho é a atividade específica do ser humano. Nele, o homem se torna mais homem, constrói a sociedade e o mundo. O trabalho dos seres humanos é o reflexo da contínua atividade criadora de Deus. A Encíclica “Laborem Exercens” (setembro de 1981) do Papa João Paulo 2º tem como tema central “o trabalho humano como chave da questão social”: “... se a solução... da questão social, que continuamente se reapresenta e se vai tornando cada vez mais complexa, deve ser buscada no sentido de tornar a vida humana mais humana, então por isso mesmo a chave, que é o trabalho humano, assume importância fundamental e decisiva” (LE, 3).

              De fato, “vai se tornando cada vez mais complexa” a questão do trabalho. Na 1ª Revolução Industrial o trabalho passou de um ciclo manufatureiro tipicamente industrial (o ciclo ferroviário-metal-mecânico e da máquina a vapor), para a chamada 2ª Revolução Industrial (eletricidade-química-rodovia e petróleo). Assistimos agora à 3ª Revolução Industrial como sendo a era da microeletrônica, dos novos materiais e da biotecnologia, que vai operando transformações na base produtiva da economia, na cultura e nas relações de trabalho, e isto a nível mundial. A engenharia das Revoluções Industriais é campo fértil à invenção humana, introdução de novos produtos, busca de novas fronteiras econômicas, conquista de novas fontes de energia e de matérias primas, desenvolvimento de novos meios de transporte, etc. Mas também é matriz para o sucateamento, falências, desemprego e destruição das velhas bases produtivas. Elaborar uma teologia do trabalho parece ser tarefa urgente que não dispensa a contribuição vital das classes trabalhadoras envolvidas nas profundas mudanças estruturais que ocorrem na área do trabalho.

 
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