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O espinho na carne [Pe Alfredinho].

 

A expressão “foi me dado um espinho na carne” a que se refere o apóstolo Paulo (2Cor 12,7-10) traz à memória, por exemplo, os fantasmas que o escritor soviético Dostoievskij e o dramaturgo britânico Shekesperare fazem conviver no dia-a-dia com seus principais protagonistas. São os pequenos (e grandes) “demônios” que atormentam a consciência, respectivamente, de Raskolnikov, na obra Crime e castigo, e de Hamlet, na tragédia homônima.

Em que consiste tal “espinho na carne”? Como identificá-los no interior mesmo de nossas entranhas? Como dar nome aos sentimentos que, de forma cega e inesperada, irrompem e disputam espaço em nossa mente, em nosso coração e em nossa alma? Instintos? Interesses? Desejos? Paixões? Quem já não se deparou, de repente, com determinadas emoções, aparentemente desconhecidas e selvagens, que habitam o terreno ignoto da consciência? Quem não conhece, plantados no mais profundo do próprio ser, os espinhos da inveja, do ciúme, da raiva, do orgulho, da vaidade, do egoísmo, do rancor, da sede de vingança ou da ambição? E a lista poderia se estender por algumas linhas...

Certo, a floresta que cobre a existência íntima de cada pessoa é bem mais complexa. Nela os “demônios” coexistem com os “anjos”. Junto ao fantasma dos espinhos, se mesclam e se entrelaçam as flores da alegria, da amizade, da entrega, da doação, do serviço, da solidariedade, da tendência ao bem, da vontade de fazer o melhor, da busca da paz, e assim por diante. Medos e dúvidas, inquietudes e contradições se cruzam e se recruzam o tempo todo. Não faltam, além disso, os temores, as perguntas e as debilidades, sempre ao lado de sonhos, esperanças e relações interpessoais. Imobilismo e indiferença caminham de mãos dadas com formas de luta, resistência e compromisso sociopolítico. Defeitos e qualidades são inseparáveis.

Por quê esse “espinho na carne”? Paulo nos ajuda a entender: “Por três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Ele, porém, me respondeu: ‘para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força pode manisfestar todo seu poder’”. De um ponto de vista espiritual, três aspectos saltam à vista. O primeiro é que, identificando os próprios espinhos que ferem e dilaceram nossa carne, ferindo e dilacerando igualmente as relações sociais, comunitárias e familiares nas quais estamos inseridos, aprendemos a conhecer melhor a própria condição humana. Somos terreno híbrido, onde trigo e joio nascem e crescem juntos...

O segundo aspecto deriva do anterior. O conhecimento recíproco, tanto na atitude egocêntrica quanto no comportamento altruísta, aumenta o leque de nossa compreensão. Basta olhar a própria imagem no espelho. Diante da consciência de minha condição, nasce e se desenvolve, em mim mesmo, um sentimento de misericórdia para com os irmãos. Sentimo-nos irmanados,  seja na queda como na superação, na violência e na reconciliação, na guerra e na paz. Minhas ações e reações pessoais, sempre ambíguas e contrastantes, constituem justamente um espelho para avaliar o comportamento dos outros, daqueles que vivem e convivem a meu lado. Se é verdade que somos todos diferentes uns dos outros, não é menos certo que nascemos marcados pelos mesmos vícios e tendências. Tendemos, de fato, a concentrarmo-nos sobre nós mesmos, deixando pouco espaço à interconexão com o outro, em especial o estranho e estrangeiro.

No terceiro aspecto, enfim, melhor passar a palavra novamente a Paulo. “É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte”. A pequenez humana, ao contrário da arrogância e da autosuficiência, abre espaço para a ação do Espírito de Deus. Na misteriosa alquimia da bondade divina, até mesmo a condição de pecado que todos carregamos como “espinho na carne”, é capaz de transfigurar-se em graça. A queda nos ajuda a depurar e purificar o orgulho e a prepotência, manifestando-se desse modo a infinita misericórdia do Pai. A humildade pavimenta a estrada onde o Senhor vem caminhar conosco na história, seja esta de caráter pessoal, social ou política. Escrevendo aos Romanos, sublinha ainda o mesmo apóstolo Paulo: “onde foi grande o pecado, bem maior foi a graça” (Rm 5,20).

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 7 de novembro de 2019

 
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