Skip Navigation Links
HOME
QUEM SOMOS
VIDA DA PO
CONCÍLIO VATICANO II
GALERIA DE FOTOS
FALE CONOSCO
MEMÓRIASExpand <b>MEMÓRIAS</b>
LOCALIZAÇÃO
LINKS
 
Busca:
 
Imagem
  
VIDEOS [+] mais
  
Depoimentos
DESTAQUE
SANTO DIAS, 40 ANOS DE MEMÓRIA: A LUTA CONTINUA!

 

SANTO DIAS, 40 ANOS DE MEMÓRIA: A LUTA CONTINUA!

 A imagem pode conter: 1 pessoa, sentado e área interna

Carta ao companheiro Santo Dias,

            Como diz o canto em sua homenagem: “Santo a luta, vai continuar”, hoje celebramos 40 anos de sua memória companheiro, em plena luta de classe. O Brasil regrediu décadas nos últimos anos. Após sua páscoa, o país se ergueu, trabalhadores se organizaram, fizeram muitas greves, fecharam fábricas em protestos por direitos, organizaram chapas de oposição sindical, ganharam eleições, criaram partidos de alinhamento a políticas de esquerda, um operário chegou ao poder como presidente, chegamos a quase o pleno emprego (menos de 5% de desemprego no país), diversas categorias conquistaram direitos, trabalhadores se organizaram de diversas formas, construiu centrais sindicais.

             A Pastoral Operária cresceu muito, em várias dioceses, em quase todos os estados do país, ajudou organizar vários sindicatos, promoveu formação intensiva pra muita gente. O tema mundo do trabalho ganhou um grande destaque na igreja. Seu testemunho companheiro, deu vida e nome a ruas, praças, escolas, associações, ocupações, comunidades, centros de formação, receberam o nome Santo Dias da Silva. Isso nos faz lembrar o nosso Senhor Jesus Cristo, quando diz: “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12, 24). De fato, seus frutos ainda hoje alimenta a nossa luta. Os companheiros e companheiras de São Paulo não deixaram morrer sua memória, naquele lugar onde foi assassinado. Todos esses 40 anos, um grupo de pessoas vão naquele mesmo lugar, que hoje é um condomínio de luxo, e não mais a fábrica Sylvania para registrar no asfalto: Aqui o operário Santo Dias da Silva, foi assassinado pela policia militar de São Paulo, no dia 30/10/1979.

            Hoje Santo, vivemos tempos de trevas no Brasil. A classe trabalhadora se desarticulou. Os sindicatos vivem crise de representatividade. Grande parte dos/as trabalhadores/as não sente representada. A formação da consciência crítica perdeu espaço para as “fake news”, é, nome diferente, pois é, como chama as “novas mentiras”. É assim, uma meia verdade, com uma meia mentira, gera uma mentira nova. Os trabalhadores proletariados, agora são trabalhadores precarizados. O desemprego chega a 13 milhões de pessoas. A terceirização foi porta de entrada para a reforma trabalhista, e agora a reforma da previdência. Cresce no Brasil o trabalho precário e a informalidade. Santo, para uma trabalhadora ou trabalhador se aposentar com direito integral precisará trabalhar 40 anos.

            Quanta luta companheiro! E sabe quem mais está sofrendo? Os pobres, como sempre ne?! No ano passado, em 2018, o grupo de burgueses que representa 1% da população mais rica teve rendimento médio mensal de 27.744 reais, enquanto os 50% mais pobres só ganharam 820 reais por mês. É, pobres cada vez mais pobres, e ricos cada vez mais ricos. Será que há justiça nessa terra?

            Santo, o martírio continua. Foram tantos, que como tu derramaram o sangue em luta por uma sociedade melhor – justa e fraterna. Uma legião de mártires naquele mesmo tempo. Ainda hoje companheiro, continuam fazendo mártires, da causa da justiça, dos direitos, da terra. Lembro Marielle Franco, vereadora assassinada do Rio de Janeiro, pelo PSOL (um partido que nasceu depois que você morreu). E sabe quem é amigo do suspeito? O presidente, Bolsonaro. Ela foi outra sementeira, que como tu, está com seu nome nas ruas, praças, repartições públicas, mantendo viva a sua memória. E a gente continua perguntando: quem matou Marielle? Eita, no santuário dos mártires no céu deve encontrar toda essa gente, os mártires da justiça e da paz!

            Não temos perspectivas de mudanças companheiro. O povo trabalhador, classe trabalhadora, não é mais a mesma força dos anos 70/80. A reestruturação produtiva, desarticulou também o movimento de trabalhadores. A igreja, apesar do Papa Francisco, não abraça mais a causa do trabalho, como “chave da questão social”, conforme aponta a Carta Encíclica Laborem Exercens. A Pastoral Operária reduziu muito o seu quadro de agentes, militantes e grupos de base. Mas, continua acreditando no trabalho como “chave”. Continuamos sendo espaço de reflexão da vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Acreditamos na formação de consciência crítica como instrumento de transformação social.  Em 2020 celebraremos 50 anos da nossa querida PO! Benza a Deus, é missão que se renova. Novos tempos virão, novo jeito de ser pastoral virá! E como canta nosso amigo Zé, “somos gente nova vivendo a união, somos povo semente da nova nação”.

            Bom, teria tantas coisas, e detalhes, pra lhe contar nesses 40 anos de memória, mas vamos ficando por aqui. Intercede por nós companheiro. Santo, a luta vai continuar! Santo Dias, presente!

 

Um abraço

Por Jardel Lopes, liberado nacional, Pastoral Operária.

A imagem pode conter: 1 pessoa

HISTÓRIA DE SANTO DIAS DA SILVA

1942-1979

Pe Miguel Pipolo, assessor nacional da Pastoral Operária

 

Em 22 de fevereiro de 1942 nascia Santo Dias da Silva, em Terra Roxa, pequena cidade no interior de São Paulo, em meio à lavoura de café. A família era muito católica, não faltando a devoção a Nossa Senhora. A Igreja era a sua a segunda casa. Assim sendo, Santo foi Congregado Mariano e participava na Legião de Maria; continuou assim em São Paulo, na Paróquia da Vila Remo, zona sul de São Paulo, na Comunidade da Vila Santa Margarida. Na paróquia, Santo se tornou animador das comunidades eclesiais de base e dos cultos sem dominicais. A Congregação Mariana fora fundada por um Jesuíta em Roma onde lecionava. O apostolado da Congregação consiste no culto à Virgem Maria, no esforço pela santificação pessoal, na salvação do próximo e na defesa dos valores e tradições católicas. Era organizada conforme as categorias sociais, etárias e profissionais para melhor orientar a formação do membro e sua intervenção no meio social. A aceitação de alguém na associação era muito rigorosa. Os que se destacavam no apostolado deviam se consagrar a Nossa Senhora, fazer uma reforma de vida através de retiro fechado, comungar frequentemente, rezar o terço todos os dias e ser assíduo nas reuniões semanais. O não cumprimento das obrigações podia resultar em sanções e, eventualmente, na exclusão do congregado. A Legião de Maria fora fundada na Irlanda em 1921. O nome Legião de Maria era uma proposta de um dos fundadores, que inspirado nas legiões romanas, deu-lhe também uma estrutura organizacional similar àquelas legiões. Havia o núcleo básico e local, geralmente numa paróquia, chamado “Presidium”, que congrega os militantes organizados hierarquicamente por um grau crescente de responsabilidade. Eles se reuniam semanalmente no “presidium” para a oração em comum, fazer o relatório das atividades semanais, geralmente realizadas em duplas, e refletir sobre os ensinamentos contidos nos estatutos da fundação. A Legião de Maria tem como objetivo a glória de Deus por meio da santificação dos seus membros pela oração e cooperação ativa, sob a direção da autoridade eclesiástica. Como se vê, esta atuação na Igreja e seus movimentos deu substância e rumo à vida de Santo e sua participação na realidade do dia-a-dia; forneceu o eixo da sua espiritualidade.

Aqueles movimentos faziam parte da “Ação Católica”, ponta de lança no combate da Igreja ao liberalismo e ao socialismo. A Ação Católica reagia também contra a intensa apostasia das massas e contra a concepção religiosa do mundo. Ela fora criada para atuar nos vários âmbitos da sociedade moderna, em consonância com a hierarquia eclesiástica. Atuando como um “exército católico de reserva”, através de seus vários ramos especializados, a Ação Católica pôde influir nas esferas fora da Igreja do mundo secularizado e dentro dela onde faltavam ministros ordenados consagrados à ação da Igreja. E houve o Concílio Vaticano II que se tornou um grande centro dispersor de energias renovadoras da missão da Igreja, num mundo pautado por novos padrões teóricos e tecnológicos, que redimensionaram o comportamento humano.

O destino de Santo na vida era o de todos naquela região; Santo foi lavrador e meeiro; e ele também. Seu pai trabalhou em fazendas a vida toda; 10 anos aqui, outro tanto ali, e assim era em meio ao cafezal. O regime de trabalho era por “pé de café”, ou seja, “mil pés de café”; a família pegava quantos mil pés podia e tocava a vida. O arroz e o feijão eram plantados entre as fileiras de café; este era todo para o patrão. O resto era dividido; a família ficava com metade. Por isso era chamado “meeiro”. Era dessa metade que se vivia e se pagava o armazém onde se comprava o azeite e outras coisas. Se a colheita tinha sido boa, dava para comprar uma roupa uma vez por ano; mas dentro de casa não tinha móvel nenhum, a não ser algo parecido com cama. Na fazenda o patrão não queria saber de contrato assinado, de carteira de trabalho. Dizia: “quem quiser essa coisa de carteira que vá para a cidade arrumar ‘um bico’; aqui, não”. Portanto, não havia qualquer vínculo empregatício. Em 1958 a família Santo Dias foi cultivar gêneros de primeira necessidade em uma empresa agrícola, onde havia divisão de trabalho entre lavradores e operários. Santo aprendeu também a fazer outras coisas como manutenção dos equipamentos agrícolas. Passou também a exercer a função de tratorista; nela, sofreu um acidente com o trator, a roçadeira quase amputou a perna de Santo. O patrão até que fez o que pode para sanar o problema da perna. A família toda teve de sair da fazenda e não tinha para onde ir. Alugaram uma casinha e vendiam feijão. Tiveram de vender o cavalo, as galinhas, os porcos. E o Santo se tornou “boia-fria”. Ao mesmo tempo ele procurou o sindicato. Era o começo da sua militância sindical.

       Numa revista chamada “Proposta” de uma entidade social chamada Federação de Órgão para

Assistência Social e Educacional (FASE), é Santo quem fala. “Mudei para São Paulo em 1962. Foi uma das épocas em que tinha mais facilidade de emprego. Havia todo o desenvolvimento automobilístico que estava crescendo e pegava mão-de-obra, assim, de qualquer jeito. Então cheguei e foram três dias para organizar os documento e começar a trabalhar. E aí, dentro da fábrica, como nunca deixou de ser, a solicitação de trabalho da gente era um negócio exorbitante. Além das oito horas de trabalho, a gente tinha de fazer duas, três horas a mais; e trabalhar também no final de semana, sábado e domingo”. É Santo ainda que mostra sua consciência social numa entrevista bem antes de seu assassinato. Dizia ele: “Acho que a mobilização será feita pelo camponês que é detentor da coisa. Vejo que o camponês está menos protegido do que o trabalhador da cidade. Ele atua em meio às grandes propriedades pelo país afora. A terra está concentrada nas mãos de poucos; tem muita gente sem terra. O processo de mudanças está nas mãos do camponês; ele é muito atrasado, mas é o cara que pode brigar por uma coisa mais concreta que é a terra”.

            Na fábrica Santo começou a ter contato com a realidade cotidiana dos trabalhadores e das duras jornadas diárias. Diz ele: “Dentro daquele processo de trabalho, de exigências dos patrões, não eram só uns poucos que tinham consciência da exploração, mas todos os companheiros; e como o  negócio era bravo. Até hoje tenho algumas marcas de queimadura do metal quente”.

            O dirigente sindical era aquele que todos conheciam; atuava em conluio com o patrão. Não organizava os trabalhadores; vivia tomando cafezinho com os patrões; só se preocupava em manter a casa da praia da categoria... Lutar!... nada; vivia buscando “benefícios”.... O pior era que perseguia quem tinha coragem de brigar pelo trabalhador, quem procurava “organizar os companheiros”. Havia um movimento na classe trabalhadora chamado “oposição metalúrgica” que não dava descanso aos “pelegos”, e por isso “levava pau” a toda hora; era “uma pedra no sapato” dos dirigentes do sindicato dos metalúrgicos que não conseguiam controlar a tal da oposição. Santo era uma das lideranças da oposição e do meio sindical que ressurgia das cinzas. Com seu jeito de pessoa serena e ponderada, calmo e alegre, Santo era voz ativa e ouvida. Os anos de 1976, 77, 78 e 79 foram anos de fatos marcantes, de avanços e recuos, perseguições e vitórias na história do sindicalismo; anos de glória e controvérsias. E de enfrentamento com a ditadura militar que durou vinte anos... É Santo quem nos diz: “O movimento operário não estava parado. Em 62, quando cheguei, já havia greves, mobilizações para reivindicar por salário. E havia a luta 13º salário pela qual se deram várias paralizações. Participei delas, embora sem muita clareza das coisas. Mas estava dentro do movimento, e percebendo como estava a situação. A greve pelo 13º salário foi bastante movimentada, e muitos líderes e dirigentes sindicais foram presos. Operários também foram presos, vários. Participamos correndo da polícia, pois ela baixou o cacete. Eu me lembro de alguns detalhes; por exemplo, na rua Brasilio Luz, onde eu trabalhava, a policia fechou a rua, e quem estava lá, e o jeito era sair, acabava saindo na porrada. E não tinha jeito. Muita gente foi presa. Havia alguns tentando furar a greve, outros querendo realmente escapar, porque era tido como grevista ou “piqueteiro”. Essa foi uma das primeiras greves das quais participei, já como operário na capital. Percebi também que o sindicato precisava ser diferente pois não havia espaço para nós; éramos confrontados pelos dirigentes. Era preciso criar um sindicato a partir das fábricas; foi para isso que fomos criando no movimento operário o que se chamou de “oposição sindical”, na qual estou até hoje. A luta era também por uma outra estrutura sindical e passamos a fazer oposição a ela e aos dirigentes sindicais que estavam aí como suporte; a gente precisava ganhar o sindicato dos metalúrgicos. Em 1968, quando a gente estava consolidando um trabalho, foi quando aconteceu aquela manifestação na Praça da Sé. Tinha ali a possibilidade da gente dar um salto de qualidade, mas no entanto a repressão era ainda a expressão maior naquela época. A gente não teve condições de passar para a ofensiva realmente, como operário. Mas conseguimos um avanço; a gente achava que em 68 já era possível, mas não foi; ocorreram alguns fatos, como a greve de Osasco. A partir da manifestação do 1º de maio de 68 começamos, então, a rearticular a oposição sindical. Em 69 houve uma chapa da oposição sindical da qual participei como elemento de apoio, dando cobertura ao pessoal lá da fábrica, convocando e divulgando a chapa da oposição. Não conseguimos ganhar as eleições em 69. Em 72 montamos outra chapa mas não conseguimos. Em 74 prenderam muitos companheiros; na zona sul prenderam uns 45. A luta ficou amortecida. Era preciso mudar a forma de luta; a palavra de ordem passou a ser “atuar e organizar os companheiros dentro da fábrica”. E assim chegamos a 78 com um grupo de oposição mais consolidado, com mais clareza das coisas. E montamos uma chapa da oposição que só não ganhou porque o Ministro do Trabalho interviu na apuração. O movimento operário estava em ascensão”.

            O começo da militância sindical do Santo se deu de 1965-68; era um tipo de voluntarismo cristão com luta por melhoria de condições de trabalho. Na medida em que as lideranças sindicais caíam nas mãos da repressão, com maior incidência após 1968, Santo e outros quadros intermediários tiveram de fazer a opção de se comprometer efetivamente com a luta ou abandoná-la. E Santo intensificou sua participação efetiva para mudar a direção do Sindicato dos Metalúrgicos. Esse sindicato criara uma cooperativa habitacional, assistência médica, dental e jurídica, colônia de férias e outros atendimentos que iludiam os associados, e desviava o sindicato do seu papel histórico. Santo dizia que sindicato era para outra coisa: ser a trincheira de luta das conquistas trabalhistas, e não um posto de assistencialismo. Para isto era fundamental convencer os companheiros da necessidade de uma oposição sindical.

            A Pastoral Operária surgiu no início dos anos 70 na região sul do município de São Paulo que ia do Ipiranga a Itapecerica da Serra, que era outro município. A região sul era um os principais centros industriais de São Paulo; havia ainda a zona leste e Osasco. A fábrica, o bairro, a comunidade: esse era o tripé de atuação. Quem era da Pastoral Operária precisava também ser militante na comunidade e no bairro. Santo Dias da Silva se fez na luta, discutindo os problemas sociais com seus companheiros do chão da fábrica. Ele crescia em sua consciência de classe. Ao mesmo tempo firmava-se na fé de um Deus Libertador, vivenciada na vida comunitária da igreja do seu bairro. A Pastoral Operária abrigava correntes operárias católicas; já oposição sindical metalúrgica (OSM-SP) era uma das vertentes do movimento operário e abrigava militantes da esquerda das mais variadas matizes ideológicas que compunham a “osm-sp”. A Pastoral Operária incentivava metalúrgicos católicos a nela participar. Santo foi um deles com sua espiritualidade mariana e sua atuação na Legião de Maria.

            Às 2 horas da tarde (mudança de turno) do dia 30 de outubro de 1979, a oposição sindical estava defronte da fábrica Sylvana organizando um “piquete” tentando convencer os trabalhadores a não entrarem para trabalhar. Chega a polícia com duas Tático Móvel e uma Rádio Patrulha; policiais saltam dos carros com armas na mão e passam a agredir com socos e chutes quem estivesse pela frente; operários reagem. Tiros são dados; ouve-se um grito profundo e longo. Era Santo morrendo...

 

 
< Voltar para a página anterior
 
  Endereço: Rua Guarapuava, 317 
Bairro: Mooca - São Paulo - SP - CEP 03164-150
 email: pastoral.operaria.nacional@gmail.com  e contato@pastoraloperaria.org.br
Tel.: (11) 2695-0404/ Fax.: (11) 2618-1077